João Velozo/LeiaJá Imagens
Familiares de Israel Campelo, morto em deslizamento nesta segunda-feira (João Velozo/LeiaJá Imagens)

Cidades

Moradores relatam reencontro com a fatalidade após chuvas

No Grande Recife, primeira morte do ano foi registrada nesta segunda-feira (6), em um deslizamento de terra no bairro de Águas Compridas, em Olinda

por Vitória Silva | seg, 06/02/2023 - 16:47

Pernambuco registrou, nesta segunda-feira (6), a primeira morte em decorrência das fortes chuvas que chegaram à Região Metropolitana do Recife (RMR), ainda na noite do domingo (5). O período chuvoso, que já é preocupação da população local, em especial, dos moradores ribeirinhos e localizados nas encostas da metrópole, se tornou um medo ainda mais presente após as ocorrências de 2022 terem deixado, em apenas um mês, mais de 130 mortes. 

O cenário se repetiu em uma área que já conhece a realidade dos alagamentos e deslizamentos. Desta vez, o deslizamento aconteceu em Águas Compridas, bairro de Olinda. O jovem Israel Campelo dos Santos, de 19 anos, foi a vítima fatal. Seus familiares também ficaram feridos. O rapaz, que era motoboy e trabalhava no próprio bairro, deixou a mãe, o pai e três irmãos.  

No ano passado, a região foi a primeira a ser atingida por deslizamentos, também com mortes, ainda no mês de maio. À época, as ocorrências foram nos bairros da Caixa D'Água e Córrego do Abacaxi, a 10 minutos de Águas Compridas; todos cortados pelo Rio Beberibe. No deslizamento que vitimou Israel, nesta segunda-feira (6), o local, apesar de não possuir histórico de mortes, era considerado de risco e tinha trechos interditados pela Defesa Civil municipal. 

 

“Eu estava dormindo e me acordei com a zoada. A gente tem um galpão atrás de casa e eu pensei que tinha sido algo no galpão. Gritei pelo meu filho, assombrada: ‘tu tás vivo?’, e ele já estava bem na porta me chamando. Ele que estava gritando por mim, para eu sair de dentro de casa, porque achou que era algo lá dentro. Meu menino que chegou primeiro na hora e ficou escavando com a mão, aí ouviu um grito de socorro. Era uma mulher”, relatou a senhora Severina da Silva, de 65 anos. Ela é conhecida como “Dona Biu” e mora em Águas Compridas há cerca de 40 anos. 

Dona Biu diz que, apesar do risco, nunca havia presenciado uma tragédia como esta, com mortes. O caso aconteceu na Rua Seis de Janeiro, que é alta e mais se parece com uma viela. Boa parte da escadaria que leva ao topo do morro não possui corrimão para dar suporte aos moradores. 

“Eles me mandaram sair e que eu só voltasse quando estiasse. Porque tem risco de uma estrutura em cima desabar e cair na minha casa. A minha casa mesmo não tinha risco não, até hoje, mas o solo encharcou e eles precisam que a chuva pare para ver. Eu nunca tinha presenciado uma tragédia como essa. Via na televisão, mas na minha frente, foi a primeira vez. Se não estiar, eu não vou para abrigo, não. Vou dar um jeito de sair daí, porque estou com medo e não vou continuar morando aí. As coisas não só acontecem com os outros, não, acontecem com a gente também”, continuou. 

A casa de dona Severina ficava entre as duas casas atingidas nos deslizamentos desta segunda-feira (6). No total, foram nove pessoas atingidas, e oito sobreviventes. Em uma casa estava um casal e, na outra, sete pessoas da mesma família, a de Israel. Agora em risco, Dona Biu vai procurar abrigo com um dos filhos, ao menos para a primeira noite fora de casa. 

No momento em que falou com o LeiaJá, ela carregava uma bolsa apenas com os documentos e estava acompanhada do genro, Marcelo. O filho Rivaldo, de 40 anos, que mora com ela, também deve ir para a casa de uma das irmãs. As outras filhas de Severina moram em duas comunidades de Olinda, o Alto da Conquista e o Buraco do Afonso, que fica no mesmo bairro, mas nenhuma delas está em área de risco. 

“Eu não sei o que vou fazer. Os escombros não bateram na minha casa, mas ficaram bem próximos. Eu não sei o que pode acontecer, porque com barreira, a gente nunca sabe. Eu não penso só em mim, penso em qualquer ser humano que more em um lugar desses. A gente só mora porque é a única opção. Se pudesse, a gente não morava nesse lugar. É a primeira vez que moro em uma barreira. Sou do interior, vim trabalhar no Recife e por aqui mesmo fiquei”, concluiu. 

“Tragédia anunciada” 

No local do ocorrido, um dos vizinhos da família de Israel comunicava a todos a indignação com a situação das encostas em Águas Compridas. O sentimento do motorista Antônio Souza, de 45 anos, foi endossado pelos demais moradores, que se veem esquecidos pelo poder público há anos. O homem mora em Águas Compridas desde criança. 

“A gente pede lona, mas é o paliativo. Lona não resolve. Temos buscado para que eles venham fazer um projeto amplo, com muros de arrimo, algo nesse nível, mas somos esquecidos pelo poder público. Inclusive pelos vereadores daqui de Olinda, que moram perto da gente. Na época de campanha, aparecem todos, mas depois da campanha, eles somem. Eu amo o local onde eu moro, mas infelizmente, não adianta eu, como morador, fazer alguma coisa, e ser esquecido pelo poder público”, afirmou o trabalhador. 

Antônio fez parte do resgate das vítimas e ajudou a retirar os demais soterrados dos escombros antes mesmo do Corpo de Bombeiros chegar. “Nos deparamos lá com a situação e tinham quatro vítimas soterradas. Conseguimos resgatar o casal e o irmão de Israel, um adolescente, também soterrado. O sofá ficou sobre o corpo dele e a gente conseguiu resgatar ele. Dona Judite [mãe de Israel] teve escoriações nas pernas. Leo [morador da outra casa atingida] teve fraturas nas pernas e em um dos braços. Os bombeiros chegaram uns 45 ou 50 minutos depois do acontecimento, já tínhamos resgatado três vítimas, só ficou Israel, que, infelizmente, saiu sem vida”, acrescentou. 

O que diz a Defesa Civil 

O LeiaJá entrevistou, durante o atendimento à ocorrência, o secretatário de Defesa Civil de Olinda, Irapoan Muniz. Ele reafirmou que a área, agora isolada, é de risco, e que está entre as prioridades do município para as ações de redução de riscos a serem implementadas até o outono-inverno deste ano, quando as chuvas têm maior acúmulo. Atualmente passando por um verão típico, Pernambuco enfrenta dias muito quentes e chuvas intensas com menor frequência. Confira o retorno do secretário abaixo, na íntegra: 

“Três pessoas foram socorridas com vida e a quarta pessoa, Israel, faleceu. O serviço social já está localizando as famílias para viabilizar os abrigos. Nas casas vizinhas e que estão em risco, as pessoas estão sendo comunicadas para saírem das casas e às que estão sem condições de migrar para outras casas, terão acesso a abrigo. Essa área vem sendo monitorada desde o inverno do ano passado. As pessoas que estavam aqui na época receberam os auxílios moradia e emergencial, inclusive, essa família que estava na casa [de hoje] morava de aluguel, pois os donos antigos alugavam a casa [mesmo em risco].  

Estamos monitorando 49 áreas de alto risco no município e essas áreas serão contempladas com obras de contenção de encostas e de aplicação de geomanta. É lamentável que nós tenhamos uma segunda-feira dessas. Estou pegando a relação reunião gabinete prefeito e com a Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. 

Essa área, podemos admitir, é uma das mais comprometidas em Olinda. Águas Compridas, Caixa d’Água, Córrego do Abacaxi e Alto da Bondade são completamente comprometidos nas encostas. Fizemos estudos durante todo o processo para saber a viabilidade da implantação das geomantas e aqui [Águas Compridas] será a área mais contemplada. O local do deslizamento de hoje estava em um local mais crítico. Mesmo assim as pessoas, talvez pela situação de pobreza e de vulnerabilidade, insistiram em morar nessa residência.” 

 

 


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