Economia

Os postos "fantasmas" do Recife

Mesmo em pontos comerciais invejáveis, estruturas precárias ficam por anos sem uso

por Jorge Cosme | seg, 22/09/2014 - 07:00

Espalhados pelo Recife, em vias importantes, com grande fluxo de veículos, encontram-se postos de abastecimento de combustíveis há muito tempo fechados. Numa época em que “especulação imobiliária” é centro de discussões e as construtoras aumentam seus domínios, se deparar com as estruturas velhas dos postos e os grandes terrenos escondidos por tapumes é, no mínimo, curioso.

O que leva muitos postos a encerrarem o serviço começa ainda no processo de construção dos mesmos. Para abrir este estabelecimento comercial, o interessado precisa pedir autorização à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e, a fim de evitar futuros problemas, procurar as secretarias de Mobilidade e Controle Urbano e de Meio Ambiente e Sustentabilidade, ambas municipais.

Pular as últimas etapas traz o risco do posto possuir alguma irregularidade nas áreas ambientes, estruturais e de segurança e ser fechado em ações de fiscalização da prefeitura. Os principais itens inspecionados pelos fiscais são: a impermeabilização da ilha de bomba, calhas instaladas, caixa separadora de água e óleo, e os testes dos tanques. Muitos estabelecimentos são antigos e a lei específica para eles é recente (2002), cabendo ao proprietário o interesse de se adaptar às novas exigências.

Para o presidente Alfredo Pinheiro Ramos, do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Pernambuco (Sindicombustíveis), a decepção com os lucros também são fatores que costumam vitimar os postos. “Este não é um negócio tão rentável. Os donos acham que vão conseguir muito dinheiro, mas a concorrência é alta”, explica.

Segundo o economista Djalma Guimarães, o fracasso no ramo de combustíveis surpreende. “No primeiro momento, vemos que o preço do combustível tem crescido e a tendência atual é aumentar o número de consumidores. A demanda tende a ser lucrativa”, diz. Djalma classifica os postos de combustíveis em dois tipos: os de serviço e os de preço. Os de serviço são aqueles que tentam atrair os consumidores por motivos que vão além de encher o tanque, como uma loja de conveniência e oficina. O segundo tipo já se preocupa em oferecer preços baixos e competitivos do combustível. “O que pode ocorrer é uma falta de estratégia com planejamento. O empresário talvez não consiga identificar qual é o melhor tipo para aquele local”, comenta o economista.

Os efeitos do encerramento de um posto de gasolina não terminam apenas nele. A rua em frente a um desativado Posto Total, no bairro de Afogados, na Zona Sul do Recife, contabiliza alguns pequenos negócios de automóveis, como borracharia e venda de peças. “Quando eles fecharam, lá para 2011, ‘quebrou’ para todo mundo da área. O comércio foi todo prejudicado. Eu pegava muito serviço com eles”, diz o dono de uma loja de amortecedores. Nervoso por não saber o valor das informações que concedeu, ele não quis se identificar. Segundo o comerciante, o posto ia fazer uma reforma, mas alguma coisa deu errada e a estrutura ficou desnivelada. “Aí o local está embargado. Ultimamente a prefeitura esteve por aqui. Uns caras tiraram a metragem da área”, conta.  

Outro comerciante, Francisco Luciano, de 42 anos, trabalha em frente a um posto da Petrobrás fechado entre três e quatro anos. Segundo ele, o negócio acabou por problemas na ilha de bomba. “Provavelmente o dono não vai querer vender, porque a Petrobrás paga para ele manter o negócio fechado”, diz. Na Avenida Domingos Ferreira, o posto também precisou fechar por problemas estruturais, como relata o vigia Sebastião Rosa dos Santos, de 75 anos. “Quando chovia, o canal da avenida entupia e a água transbordava. Qualquer chuva aqui vira um rio. Ali atrás tem sete tanques de gasolina, que a água entrava. Começaram a dizer que era o dono quem colocava”, lembra Sebastião. “O dono pediu a Shell para levantar os tanques e fazer um aterro, mas era uma obra muito cara”, conclui. Atualmente, o local oferece o espaço para publicidades. Um cartaz de “vendo” está estampado na estrutura, mas se refere apenas à cobertura. De acordo com o vigia, o proprietário tem mais de 90 anos e não estaria interessado em abrir um novo negócio.

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, os postos da Rua Imperial, Domingos Ferreira e Caxangá foram todos fechados pela ausência da Licença de Operação (LO). O de Afogados, situado há poucos metros da Estação Largo da Paz, foi desativado pela Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano porque tinha irregularidades de condições atmosféricas. Ainda há um da Shell interditado ao lado do canal de Setúbal, na Zona Sul. O motivo do seu fechamento foi justamente o ponto em que se encontrava. Segundo a lei municipal 16.786/2002, a estrutura não pode ser instalada próxima de canais, lagos e rios.

A secretaria esclareceu ainda que não há lei que restrinja o uso do terreno por ter sido um posto de gasolina anteriormente. "Se foi fechado corretamente, a empresa pode finalizar o negócio hoje e ele já ser outro empreendimento amanhã", comenta o gerente de fiscalização da secretaria, Ismael Cassimiro. Os tanques de gasolina também são totalmente esvaziados, para não trazer riscos. 

Não é difícil teorizar que, por se encontrarem em vias de grande fluxo, os postos desativados deviam estar sendo bastante disputados e vivendo notável processo de transformação. Mas isto não ocorre. No bairro do Cordeiro, o Tenório Neto Combustíveis é uma exceção, sendo utilizado como estacionamento. Mas ainda assim, seus equipamentos, já enferrujados, continuam lá.   

De acordo com o corretor Mauro Andrade, do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Pernambuco (CRECI-PE), o local em que estes comércios se encontram, apesar de parecer ideais, têm algumas características que reduzem a cobiça do ramo imobiliário. “O tamanho é um empecilho. Os empresários não querem construir algo com menos de 15, 16 andares”, esclarece. “Às vezes o negócio está localizado em uma esquina, aí ainda tem a questão dos recuos obrigatórios, preservação do ambiente...”.

Questionado se esses terrenos não devem entrar na mira dos corretores em um futuro próximo, Mauro Andrade revela: “Com certeza, mas os construtores mais importantes estão abastecidos de área que você nem imagina”. Justamente por estar em pontos estratégicos, a venda desses imóveis desativados também são caros para negócios menores. Os terrenos então ficam inutilizados, no dilema dos que podem mas não querem e dos que querem mas não podem.


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