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Empregos

Profissão de tradutor de libras resiste em mercado escasso

Tradutores e intérpretes de Libras explicam que, apesar da profissão traduzir a segunda língua oficial do Brasil, empresas só contratam sob necessidade

por Camilla de Assis | sex, 11/01/2019 - 15:18

Aos 31 anos de idade, Daylândia Carvalho coleciona 12 anos de relação com a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Reconhecida pela lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, como a segunda língua oficial do Brasil, Libras foi a área que Daylândia teve curiosidade em conhecer e acabou tornando profissão, ainda jovem.

Tudo começou quando, então criança, Daylândia Carvalho foi levada pelo seu pai para um culto na igreja frequentada pela família. Lá, havia uma intérprete e tradutora e um grupo de surdos. “Eu quero fazer isso ‘daí’”, relembra de ter dito ao pai. A vontade e curiosidade se voltou, desde então, para conversar sem usar a voz.

Os próximos passos de Daylândia foram fazer um curso básico de Libras dentro da própria igreja. “Eu também me aproximei dos surdos e aí começaram a me chamar para interpretar lá na frente e eu fui, daquele jeitinho, fazendo uma interpretação bem básica”, explica a mulher. Em seguida, Daylândia optou por fazer um curso avançado na Escola Estadual Governador Barbosa Lima. “Eu estava mais avançada do que o conteúdo avançado que estavam ensinando”, brinca.

Daylândia, então, voltou-se para a área de educação. “Fiz a graduação em pedagogia e hoje atuo como coordenadora pedagógica em uma escola. Fiz uma especialização em Libras e também sou tradutora e intérprete; dou aula de Libras em uma faculdade de Olinda e também faço traduções em eventos, quando algumas empresas me chamam”, diz.

Assim como Daylândia, Nina Sousa, 36, também escolheu a profissão de tratudora de Libras para a vida. Há 12 anos, Nina atua como tradutora e intérprete da língua. “Desde criança já achava interessante. Em 2006, fui fazer um curso de telemarketing, onde muitos surdos faziam de administração e montagem de computadores. Lá, eu ficava mais na sala dos surdos do que na minha”, brinca Nina.

O aprendizado inicial, segundo ela, foi com a conversa com os surdos. “Depois fui fazer um curso básico e fiquei acompanhando eles em bancos, médicos, entre outros locais”, explica Nina. De acordo com a mulher, a dificuldade de comunicação das pessoas surdas é grande e isso os deixa à margem da sociedade. “Nas escolas há matéria de inglês, espanhol, mas não de Libras, que é a segunda língua. Isso é injusto, as pessoas precisam ter mais atenção e tentar realmente aprender”, aconselha.

Mercado de trabalho

Tanto para Daylândia quanto para Nina, a profissão de tradutor e intérprete de Libras não é suficiente para levar comida para a mesa. Geralmente, as atuações delas na área são na forma freelancer. “No Senac, por exemplo, me chamam para fazer a tradução da aula quando tem algum surdo lá. O último que fiz foi de Autocad”, resgata Daylândia, salientando que os contratos são pelo tempo que a qualificação durar, o que faz com que vários intérpretes desistam das vagas. “Quando chamam por lá, a empresa só pode contratar depois de seis meses. Quando os cursos são, por exemplo, de uma semana, os tradutores não querem. Eu vou, comigo não tem isso, não”, conta.

Já Nina ainda conseguiu atuar um tempo como intérprete do da Prefeitura do Recife. “Todas vez que tinha algum evento com o prefeito, eu interpretava também”, explica. Entretanto, os outros serviços são escassos. “Eu era chamada umas três vezes por mês. A hora de tradução variava de acordo com a empresa, mas geralmente ia de R$ 50 a R$ 100. Fora isso, não tive algo fixo. Para mim foi mais limitado”, salienta Nina, que é cadeirante e teve problemas de locomoção para atuar como tradutora, por isso desistiu da profissão. Agora, ela se tornou empresária e tem uma gráfica em casa.

Legalidade

Apesar de ser a segunda língua oficial do País, a lei que regulamenta a profissão de intérprete e tradutor de Libras somente foi publicada em 2010. Além disso, ainda tramita na Câmara dos Deputados um projeto de Lei, com intuito de revogar a legislação anterior, que pretende regulamentar a função de tradutor, guia-intérprete e intérprete da língua. Em agosto do ano passado, a última ação foi a aprovação, com emenda, pela relatora e deputada Gorete Pereira (PR-CE).

De acordo com o texto, os profissionais de Libras terão jornada de seis horas diárias ou 30 horas semanais. Já para o trabalho de tradução e interpretação superior a uma hora de duração, é necessário que seja realizado um regime de revezamento, com, no mínimo, dois profissionais. Apenas em 2002, pela Lei 10.436 a Libras foi considerada um meio legal de comunicação no Brasil

Sancionado em 2005, o decreto 5.626, de 2005, prevê o oferecimento do curso de Libras nas instituições de ensino superior, seja como graduação, disciplinas optativas ou obrigatórias.

Em 2016 entrou em vigor a Lei 13.146/2015, que promove a igualdade entre as pessoas. Chamada Lei Brasileira de Inclusão ou Estatuto da Pessoa com Deficiência, o decreto promoveu mudanças significativas nas áreas básicas, como educação, saúde, e cultura. Além disso, agora empresas precisam oferecer acessibilidade a pessoas com deficiência.

O que é preciso?

Legalmente, é preciso ter ensino médio e cursos de educação profissional; cursos de extensão universitárias; e/ou cursos de formação continuada, promovido por instituições de ensino superior ou unidades credenciadas pelas Secretarias de Educação. Até o dia 22 de dezembro de 2015, era preciso realizar um exame de proficiência em Tradução e Interpretação de Libras - Língua Portuguesa para alcançar o título profissional.

Já o projeto de Lei em tramitação na Câmara dos Deputados prevê algumas alterações. Se ele for aprovado, a profissão será habilitada para bacharéis em tradução e interpretação em Libras - Língua Portuguesa ou em Letras com habilitação em tradução e interpretação de Libras e Língua Portuguesa; bacharéis em outras áreas que, na data de publicação da lei, tenham sido aprovados em exame de proficiência em tradução e interpretação em Libras - Língua Portuguesa; bacharéis em outras áreas que possuírem diplomas de cursos de extensão, formação continuada ou especialização, e tenham sido aprovados em exame de proficiência em tradução e interpretação em Libras - Língua Portuguesa.

Também estão na lista profissionais habilitados conforme a legislação anterior; profissionais que comprovarem atuação de 5 anos; e portadores de certificado de exame de proficiência em Tradução e Interpretação de Libras - Língua Portuguesa.

Panorama

No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, 9,7 milhões de pessoas são surdas. Desse total, 2.147.366 milhões apresentam perda auditiva severa, entre 70 e 90 decibéis, sendo em torno de um milhão de jovens com até 19 anos.

Já de acordo com a World Federation of Deaf (WFD, Federação Mundial dos Surdos, em inglês), 80% das pessoas surdas são analfabetas na língua escrita, além de baixa escolaridade e demais problemas de escrita.


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